I CONCURSO PETROBRAS CASABLOCO DE ARTES CARNAVALESCAS

Tem que reinventar seu carnaval.

Ela me disse.

Menina abusada, vê foto em preto e branco e acha que não tinha cores no meu tempo, no tempo do sépia, da baianinha eu-sorridente e caligráfica: ‘Carnaval de 1937’. Bem que pedi pra jogarem minhas cinzas na Banda de Ipanema, mas duvido, vão me jogar no mar, chorar poesias pra, no final, eu virar comida de peixe. Deixestar. Que eles nem sabem o que é conhecer os três maridos no carnaval. Se bem que um. De cada. Vez.

Préstipo, rancho, entrudo, corso, cordão, sociedade, minha neta embolotava tudo no que ela chamava de antigamente e saía pela casa arrastando fiapos de melindrosa. Se esforçava pra decorar marchinhas. Rubrava as espinhas da cara com as versões impróprias que um dia escorreram dos lança-perfumes. “Mas, vovó?!”. Será que ela pensa que não tinha sacanagem no início do século passado? Eu mesma jamais casei virgem.

Tem que reinventar seu carnaval, vó. Ela me disse.

Mas sabe lá o que é ter joanetes?

Bati a porta do quarto chorando e desbati furiosa pra espiar a Banda sem Albino Pinheiro nem chope no Jangadeiros. Sem meus mortos que eu sequer enterrei. Sozinhas – eu e minha artrose. Depois ela me pediu desculpa, palavras tropeçando no abraço. Agradeci de confete na cara o conselho estabanado. Carnaval prescreve? Que ele esteja convosco, tem horas que é na gente mesmo que as coisas morrem. Em mim, por exemplo, os anos embaraçaram a lucidez e nem por isso ela deixou de me arrastar pras bandinhas na areia vadia da praia.

Não foi só préstipo, rancho, cordão, entrudo, corso, sociedade. Eu nunca nem nasci a tempo de metade disso, ela que confundia. Mas tive as idades – todas – pra desfilar na Presidente Vargas de mijo escorrendo as arquibancadas. Bloco e baile e quadra, os pileques que eu não quis ou não soube querer desbeber.

Quando ela me levou pro Clube dos Democráticos, eu ri, quem diria. Precisei ter cabelo branco e dor nas juntas pra riscar o salão que minha mãe, na Lapa turuna dos mil novecentos e trinta, advertia: não é pra moça de família. Senti gosto de hidrolitol tomado em pé, gosto da Praia das Virtudes que o aterro mastigou. Nem era nada disso que eu queria falar: apenas deixem os netos sentirem o emaranhado de cores que as baianinhas-sépias escondem nas fotos. E chamem pelo nome cada uma delas. Carnaval.

Afinal, se do lado do meu caixão botaram pra tocar marchinha e sambas-enredo não foi porque eu pedi.

Foi porque ensinei.

E mesmo que eu saiba que ninguém aqui vai jogar minhas cinzas na Banda de Ipanema, eu dei meu jeito de virar confete – confete de peixe, é verdade. Se isso dá pra nome de bloco, vai que acho mais marido por aqui. Dessa vez: todos ao mesmo tempo.


MANU DA CUÍCA sou filha de uma meia-ponta com um ponta de lança, formada pela Uerj e pelo bar Bip-Bip. Tenho mais de 30 músicas gravadas, um musical encenado (Avenida Réveillon, 2012), dois sambas-enredo pela Estação Primeira de Mangueira (2019 e 2020) e sambas para os blocos Voltar pra Quê? (2012), Simpatia é Quase Amor (2013 e 2018), Comuna Que Pariu (desde 2015) e Suvaco do Cristo (2018). Tive dez textos publicados em coletâneas, entre contos, poesias e crônicas, e fui premiada nos concursos literários Nossa Gente, Nossas Letras (ABL, 2006), Contos do Rio (O Globo, 2007) e para Ler a Lapa (Imã Editorial, 2015). Gosto de caruru, cerveja no copo americano, luz de outono e gol de peixinho.

A fotografia que acompanha o conto é de ALEXANDER MOSCHKOWICH, fotógrafo há 26 anos, hoje dedico meu trabalho a desbravar e interpretar a brasilidade, a cultura e a diversidade em imagens fotográficas, com abordagem baseada nos conceitos da antropologia visual.

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